Ex-policial militar e consultor do Secovi, o sindicato da indústria imobiliária em São Paulo, o professor de direito Florival Ribeiro abre seu curso sobre segurança para porteiros com uma regra clara: “a função dos senhores é detectar [o perigo], dificultar [a entrada do criminoso] e avisar [caso o intruso entre no condomínio]. Se o porteiro for rendido, a ‘casa caiu’”, afirma.
Para evitar a rendição de porteiros, fato cada vez mais comum nos 40 mil condomínios paulistanos, Ribeiro sugere blindar o profissional, primeiro contra eventuais tiros de fuzil e, depois, contra moradores e visitantes que insistem em não cumprir regras de segurança. “Quanto mais regra tiver, mais o condomínio é seguro”, afirma. ”Segurança é feia e é chata, mas todo mundo quer.”
O professor esclarece que em 98% dos casos, os bandidos entram nos edifícios pela garagem ou pela portaria, mas orienta seus alunos porteiros a não resistir caso estejam sob a mira de uma arma. Para ele, é possível agir antes disso, para evitar que o criminoso se aproxime.
A cabine blindada, por exemplo, deve ser equipada com câmera de segurança de qualidade interligada aos apartamentos para permitir aos moradores perceber qualquer problema. Também faz bem para a segurança do condomínio ter portões mais rápidos e iluminação adequada.
Ribeiro recomenda ainda que a entrada de moradores e visitantes leve em conta alguns minutos de clausura entre o portão interno e o externo, para dar tempo ao porteiro – sempre à distância ou por interfone – de perguntar e levantar documentos.
“Em primeiro lugar, é importante não deixar acontecer [a entrada do bandido]. Não adianta colocar um monte de equipamento eletrônico se quem está operando não estiver protegido. Se o porteiro não tiver segurança, não vai oferecer segurança para ninguém”, afirma.
Especialista na área desde 1998, Ribeiro disse que faz 300 planos de segurança por ano. Ele afirma que além de investimento há necessidade de mudança de atitude.
Lembra, com humor, que o visitante que entra em uma favela depois das 22h é submetido a uma saraivada de perguntas e, se passar pela portaria, tem que seguir escoltado até o destino declarado.
Nos condomínios, qualquer pergunta do porteiro é encarada como atrevimento e tem potencial para gerar queixas ao síndico capazes de provocar uma demissão sumária.
Ribeiro recomenda a síndicos e administradores a formulação de uma cartilha de procedimentos aprovada pela maioria e seguida rigorosamente por todos. “Não basta a madame obedecer. Vale também para a empregada e para o amigo da cunhada”, afirma.
Ribeiro afirma que se estiver a salvo, o porteiro pode avisar os moradores, que assim podem acionar a polícia e evitar descer à área comum do prédio.
Segundo o professor, os bandidos raramente sobem aos apartamentos. Eles normalmente esperam que cada morador desça à área comum do prédio para rendê-lo e levá-lo até os locais onde há dinheiro e objetos de valor.
O aumento do rigor com segurança não é feito só boa notícia para os porteiros. Eles não gostam, por exemplo, de ter a intimidade violada por uma câmera dentro de sua cabine de trabalho, mas segundo o professor, a prática é saudável.
Outra: de tão inviolável, a cabine acaba se transformando em risco de acidente de trabalho para o próprio porteiro. Em um episódio famoso na classe, o profissional desmaiou dentro da cabine e foi necessário esperar que ele acordasse porque não era possível abrir a porta, a não se por dentro.
Histórico
No dia 8 de março, dois prédios foram invadidos na capital paulista. No Paraíso, Zona Sul, os criminosos pularam o muro e renderam o porteiro na guarita. Moradores e visitantes foram feitos reféns. De um dos apartamentos, os ladrões levaram cartões de banco, dinheiro e aparelhos eletrônicos.
No Brás, região central, os suspeitos tinham a chave da porta principal do prédio. Durante três horas, oito apartamentos foram roubados, a maioria de comerciantes orientais.
No começo do mês, criminosos invadiram um prédio no Sumaré. Eles tinham o controle remoto que abria a garagem, e entraram sem levantar suspeitas. O porteiro foi dominado e obrigado a abrir o portão para os outros ladrões. G1
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